Walter diz que não soube lidar com dinheiro: "Perdi muito por falta de estudo"

Perto da aposentadoria, atacante calcula prejuízo de R$ 2,5 milhões depois do doping e admite impacto na carreira

| GLOBOESPORTE.COM / DENISON ROMA


Todos os clubes da carreira de Walter — Foto: Info Esporte

Aos 37 anos, o atacante Walter reflete sobre a carreira em Alagoas, cogita a aposentadoria e lamenta ter sido enganado por falta de instrução básica no início da trajetória.

O jogador revelou que o caso de doping por sibutramina em 2018, quando defendia o CSA, causou um prejuízo financeiro estimado em quase R$ 2,5 milhões.

Walter admitiu ter recusado ajuda de pessoas como o dirigente Petraglia e o técnico Enderson Moreira, perdendo oportunidades valiosas na carreira.

Ao comparar gerações, o atleta criticou a supervalorização atual do esporte, destacando que jogadores medianos recebem salários muito altos se comparados a craques do passado.

Aos 37 anos, o atacante Walter faz um balanço da carreira e reconhece que poderia ter aproveitado melhor as oportunidades que recebeu no futebol. Com passagens marcantes por Goiás, Fluminense e Athletico, o jogador lamenta não ter estudado, diz que foi enganado durante a trajetória profissional e admite que decisões pessoais tiveram sérias consequências financeiras.

Walter: "Antes, no mercado, me olhavam torto, achando que eu ia roubar. Hoje, pedem foto"

Walter vive hoje um momento de reflexão sobre o futuro no futebol. O atacante deixou Goiás e se mudou para Alagoas, onde mora em Rio Largo, e já considera seriamente a possibilidade de se aposentar.

"Eu poderia ter chegado a clubes muito maiores. Passei por grandes clubes, mas eu não precisaria estar sofrendo agora no final da minha carreira".

Na época do sucesso, o talento se sobressaía, mas, segundo o jogador, faltou conhecimento fora do campo. E isso teve um preço alto na vida do cidadão Walter Henrique da Silva.

Walter contou ao ge que desperdiçou oportunidades ao longo da carreira e disse carregar alguns arrependimentos.

— Tem muita coisa que me arrependo. Uma delas, por exemplo, foi não estudar. Nunca tive um bom estudo e muitas vezes eu me perdi, muitas vezes fui roubado. Isso acontece. Você não sabe ler, não sabe escrever... Eu não sabia, era muito novo, com 19 anos, e fui saber quanto era 1 euro, quanto era 1 dólar, quando eu já estava quase três anos em Portugal, porque eu não tinha estudo.

"Eu vim estudar um pouco mais com 27, 28 anos; cuidar das minhas coisas com 30 anos. Aí eu perdi muita coisa. O primeiro passo é você estudar para não ser enganado."

Decepções e abalo na carreira

Walter disse que o futebol tem um lado perverso, cheio de armadilhas.

— No futebol tem muito mau-caráter, o futebol é muito sujo... É empresário ganhando para te levar para algum lugar, diretor de futebol que fala que tu ganha um determinado valor para ficar com parte daquilo; isso acontece muito. Tem muito diretor de futebol fazendo isso, ganhando dinheiro em cima de atletas. Vi muito isso em alguns clubes por onde passei. Por isso, sempre digo que é preciso estudar para entender tudo na vida e não ser enganado.

Segundo o atacante, o caso de doping, quando defendia o CSA em 2018, na Série B, foi devastador para a sua carreira. Ele testou positivo para sibutramina (medicamento para emagrecer) e cumpriu suspensão de quase dois anos, voltando a jogar apenas em 2020, pelo Athletico.

— Ganhei um salário muito bom de 2014 até 2018. Não tenho que reclamar. Mas, nas escolhas que a gente faz, tem um preço que paga — disse Walter, continuando:

— Como eu caí no doping, foram quase R$ 2,5 milhões (perdidos). O meu custo de vida era alto, eu tinha que pagar minhas coisas. Isso (doping) que me atrapalhou muito também.

Apoio recebido na carreira

O atacante também lembra que pessoas tentaram orientá-lo na carreira.

— Graças a Deus, onde eu passei, muita gente queria me ajudar. Mas eu que não queria ser ajudado. O presidente do Porto me incomodou tanto, assim, me encheu o saco para eu ficar lá e eu quis sair. O presidente do Athletico, o Petraglia, também sempre quis me ajudar, sempre deixou as portas abertas, tanto que voltei pra lá em 2020. Sou muito grato a ele. Outra pessoa que me ajudou muito foi o Enderson Moreira - lembrou Walter, acrescentando:

— Essas pessoas queriam me ajudar e eu não quis ser ajudado. Não escutei e perdi muita coisa na minha vida. Eu poderia ter chegado a clubes muito maiores. Passei por grandes clubes, mas eu não precisaria estar sofrendo agora no final da minha carreira.

Segundo Walter, os jovens hoje trabalham em uma estrutura melhor em relação à década de 2000.

— Mudou muita coisa. Hoje, você pega o menino jovem, tem um cara por trás, a carga de treino, um projeto já por trás e antes você não tinha isso, nem quando comecei na base e quando cheguei ao profissional - disse Walter, continuando:

— Hoje é totalmente diferente de quando comecei lá no Santa Cruz, infantil, que era eu sozinho, eu e minha mãe. A gente arrumava dinheiro emprestado para ir ao treino. E hoje você pega o menino de 15, 16 anos, tá tudo mais fácil.

O futebol mudou

O atacante, por outro lado, acha que o futebol vive um período de forte valorização financeira e questionou até os valores pagos a alguns jogadores.

— Sem dúvida, o futebol está supervalorizado. Hoje você vê jogadores atuando com salários muito altos que não teriam condições de jogar há 10, 12 anos por falta de qualidade mesmo. Há cerca de 15, 20 anos, os jogadores não ganhavam nem a metade do que esses caras recebem hoje — disse Walter, citando dois craques que jogaram com ele:

— Naquela época, craques de verdade ganhavam R$ 400 mil, R$ 500 mil... Pelo que se paga hoje, jogadores como Fred e D'Alessandro, por exemplo, que foram exemplos de grandes nomes com quem joguei, iam ganhar R$ 4, R$ 5 milhões. Hoje, a gente vê cara "meia-boca" recebendo R$ 200 mil, R$ 300 mil.

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Walter deixou ainda um conselho para os jogadores que estão começando a carreira:

— O conselho que dou é você ser consciente das escolhas que faz na sua vida. As escolhas que você faz e pode se arrepender lá na frente. Eu trabalhei com muito menino jovem e muitos não escutam os mais velhos e ficam naquela mesmice. Parece que você recebe um valor X e quer continuar recebendo aquele valor; muitos não pensam em crescer. A gente tem que crescer, pensar e chegar no topo do futebol. Se hoje ganho R$ 3 mil, R$ 4 mil, R$ 5 mil, é preciso pensar e trabalhar para receber R$ 100 mil, R$ 200 mil...



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