Vício em crack faz Régis Pitbull, ex-Corinthians, viver nas ruas: "Se achar que estou morto, é melhor"

Prestes a completar 50 anos, ex-jogador já foi preso por agredir síndico e agora se abriga debaixo de lona em uma praça de São Paulo: "Não quero que ninguém saiba que eu existo"

| GLOBOESPORTE.COM / EMILIO BOTTA


Ex-jogador Régis Pitbull em situação de rua — Foto: Emilio Botta

Os passos não levam mais Régis Fernandes da Silva aos gramados em que brilhou no passado. Hoje, ele anda sem rumo. Caminha ao lado de um adversário cruel: o vício em crack. Aos 49 anos, o ex-jogador de Ponte Preta, Corinthians e Vasco luta contra a dependência química.

Há dois meses, Régis Pitbull, como era conhecido nos tempos de jogador, vive entre os becos e ruas de Pirituba, bairro da Zona Norte de São Paulo. O vício o fez perder o local onde morava, o apoio de quase todos os amigos e a dignidade.

O rosto de um atleta conhecido deu espaço a um semblante quase irreconhecível pela ação do tempo, da dependência química e a violência urbana de quem vive em situação de rua em uma das maiores cidades do mundo.

O ge soube da situação vivida por Régis pelo relato ex-colegas de um time de várzea do qual ele fazia parte no bairro onde cresceu.

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A dura realidade de Régis

A chuva e o vento gelado de uma fria manhã em São Paulo fizeram Régis se esconder no abrigo improvisado com lonas, cobertores e papelões em uma pequena praça. Entre o entulho de obras inacabadas e o lixo acumulado, ele tenta se reencontrar.

A rua foi a única opção depois de morar de favor com familiares e amigos. As dívidas pela falta de pagamento da taxa de condomínio e do IPTU devem fazer o ex-jogador perder o apartamento próprio, alvo de ação judicial. Ainda assim, Régis tem esperança de voltar a morar no único bem que ainda lhe resta. O ex-jogador precisou deixar o local depois de ser preso por agredir o síndico em 2025.

A fome acordou Régis pouco depois das oito da manhã. Ao atravessar a rua movimentada pelo vai e vem de carros e pessoas indo trabalhar, ele repete um dos poucos hábitos diários: ir até um restaurante pedir café com incontáveis colheres de açúcar.

Neste dia, ainda comeu algumas esfihas e tomou outros dois copos de café. Corintiano, um dos funcionários do estabelecimento brinca a cada interação com aquela pessoa que sequer lembra o atleta que entrou em campo sete vezes pelo Corinthians em 2004.

– O pessoal da torcida veio aí no domingo conversar comigo, querem me ajudar. Eu sou Corinthians demais, eles lembram sempre de mim. Me dá mais um café aí, mas coloca mais açúcar porque tá amargo – disse Régis, que usa o restaurante para ir ao banheiro e carregar o celular, único meio de contato com ele. Ele costuma usar o aparelho para fazer os pagamentos das drogas que consome.

Na noite anterior a esse encontro, Régis disse ter consumido uma "flor com ice" – mistura da flor de maconha (o botão da planta Cannabis) com o ice, um tipo de extrato de alta concentração da mesma planta.

Outra funcionária do restaurante relatou que o ex-jogador aparece diariamente no local para fazer algumas refeições doadas por eles. São raros os dias de sobriedade, segundo ela.

Sem tomar banho com frequência, Régis tem poucas trocas de roupas e unhas sem cortar. A barba e o cabelo estavam feitos graças a um amigo. Do outro lado da rua, na praça em que vive, ele tem a companhia de um homem que aparenta ter mais de 60 anos e que não tem a sua simpatia.

– Velho chato, reclama de tudo. Eu gosto de ficar no meu canto, sem ninguém me encher. Ele quer conversar toda hora. Se quisesse conversar, eu ia na feira aqui perto – disse Régis, que tinha outra missão naquela manhã chuvosa: consertar o pneu furado da sua bicicleta.

Nascido e criado em Pirituba, Régis é conhecido de boa parte dos moradores e frequentadores da região e sabe andar por aquelas ruas. Ao lado do restaurante, o posto de gasolina é a garagem da bicicleta azul usada por ele para visitar amigos e comprar drogas.

Régis não esconde o vício. Desde os primeiros passos no futebol, convive com a dependência química. Por duas vezes caiu no doping por uso de maconha. Ficou suspenso, voltou a jogar e seguiu a vida antes de ser consumido por substâncias mais fortes que tiraram dele o controle da própria vida.

Um dos poucos momentos de liberdade é quando pedala pelo bairro. Ao pegar a bicicleta com o pneu furado, Régis encontrou o policial que o prendeu em 2025, quando agrediu o síndico do prédio onde ainda tem o apartamento prestes a ser dissolvido por causa das dívidas.

– O senhor que me prendeu, mas me ajudou muito. Máximo respeito.

– Eu não te prendi, você que se prendeu. Você sabe, Régis. E a tornozeleira? – rebateu o policial.

– Já era, tá pago – disse Régis, que ficou com o aparelho durante alguns meses por ordem judicial, cumprindo medida protetiva depois da agressão.

Na borracharia, poucos metros adiante do posto, Régis conseguiu arrumar o pneu. No caminho, relembrou o auge da carreira e o status que tinha na época por jogar em um grande clube do futebol brasileiro.

– Eu andava de BMW, tive uma Dakota (caminhonete). Um dia fui na churrascaria comer uma costela daquelas top e nem paguei, tiraram fotos e não deixaram pagar a conta. Imagina isso hoje? Você está louco – disse, quando chegou até o esperado local.

O borracheiro viu o então menino crescer no bairro antes de se tornar um jogador profissional e posteriormente chegar ao fundo do poço.

– Sempre foi bom de bola, mas era briguento. Ainda é – disse, entre risadas e a ansiedade aparente de um Régis à espera do pneu novo.

Por mais que admita o problema que passa, Régis muda o semblante quando ouve as palavras ajuda ou internação. Ele rejeita deixar a rua para ficar na casa de algum conhecido, muito menos receber auxílio médico para tratar o vício. Ele repetiu que precisa apenas de um emprego para ajustar a vida.

Com o pneu consertado, Régis sobe na bicicleta, faz o teste dando pequenas voltas no posto de gasolina, observado de perto pelos colegas policiais, antes de sair mais uma vez sem rumo.

Pouco tempo depois, caminhou até o seu abrigo improvisado, se deitou e voltou a ser mais um cidadão em estado de vulnerabilidade na cidade mais populosa do Brasil.

Mais sobre Régis Pitbull

Nome: Régis Fernandes da Silva Apelido: Régis Pitbull Carreira: 170 jogos | 49 gols Clubes: Comercial, Marítimo-POR, Ceará, Ponte Preta, Coritiba, Kyoto Sanga (Japão), Gaziantepspor (Turquia), Daejon Citzen (Coreia do Sul), Corinthians, Vasco, Bahia, Portuguesa, Inter de Limeira, ABC, Al Nasr, Rio Branco-MG, Poços de Caldas-MG e São Raimundo-AM.

Ajuda em vão

A reportagem do ge conversou com diversos amigos e familiares de Régis sobre a situação do ex-jogador. Todos são unânimes ao dizer que a falta de vontade dele em aceitar ajuda é o grande empecilho para que se inicie uma recuperação. Ninguém quis dar entrevista sobre o tema.

Antes de viver em situação de rua, Régis mantinha uma rotina de altos e baixos com a sua saúde física e mental. Entre recaídas e momentos de consciência, jogava em times de várzea e conseguia uma fonte de renda.

Régis teve dois filhos, possui irmãos e o pai vivos. A mãe, há alguns anos, morreu sem conseguir ver o filho superar a dependência química.

No fim da década de 1990, Régis despontou no Comercial, de Ribeirão Preto, e chamou atenção do Marítimo, de Portugal. Foram dois anos atuando na Europa até retornar ao Brasil para jogar no Ceará.

A droga, nesta altura da vida, já fazia parte do jogador que ficou mais de quatro meses sem entrar em campo ao cair por duas vezes no doping por uso de maconha.

Atacante de beirada de campo e com a velocidade e o drible como principais características, Régis passou por Coritiba e Ponte Preta antes de atuar no Japão.

Ele ainda esteve na Coreia do Sul, Turquia e Kuwait, além de ter atuado por Corinthians, Vasco, Bahia, Portuguesa e clubes de menor expressão antes de deixar o futebol em 2012, aos 34 anos. Foi a partir da aposentadoria que a dependência química se acentuou.

O ex-jogador foi internado para reabilitação em 2022, mas menos de um mês depois de ter saído sofreu uma recaída até chegar ao fundo do poço neste ano, quando perdeu o apartamento onde morava.

Régis vai completar 50 anos em 22 de setembro e espera por uma festa para reunir os amigos.

Hoje, porém, não há nada para comemorar:

– Não quero que ninguém saiba que eu existo. Se acharem que estou morto, é melhor. Não sou um coitadinho.



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