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Mãe denuncia falhas em atendimentos após morte de bebê de 8 meses na Capital
Família relata erros na assistência, problemas com oxigênio e cobra resposta sobre as circunstâncias do caso
| BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
A família de uma bebê de 8 meses denuncia suspeita de negligência médica após a morte da criança, ocorrida na madrugada de domingo (11), após atendimentos em unidades de saúde de Campo Grande. A mãe relata problemas na administração de medicamentos, falhas no fornecimento de oxigênio durante a transferência entre hospitais e demora para conseguir atendimento em uma unidade com estrutura de terapia intensiva. O caso foi registrado na Polícia Civil e uma denúncia foi protocolada no Ministério Público Estadual.
Segundo o relato da mãe, a criança começou a receber atendimento na madrugada de quarta-feira (7), na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário. Após a realização de um raio-X, foi identificada uma mancha no pulmão. Mesmo assim, a bebê foi liberada com prescrição de amoxicilina associada a clavulanato.
Na madrugada de sábado (10), por volta das 2h, a menina apresentou febre alta, dois episódios de vômito e diarreia. A mãe informou que administrou dipirona, conforme orientação médica, mas não houve melhora. Por volta das 6h, levou a filha novamente à UPA Universitário.
Na unidade, a criança passou pela triagem e um médico a avaliou, que solicitou outro raio-X e a manteve em observação. Segundo a mãe, a equipe realizou procedimentos com bombinha, administrou soro e colocou a bebê em oxigênio. Também foram coletados 4 exames laboratoriais.
Com a queda da saturação, foi solicitada uma vaga hospitalar. A transferência foi autorizada para a Fundação Carmen Prudente de Mato Grosso do Sul, conhecida como Hospital de Câncer, para onde a criança foi encaminhada por volta das 13h59.
A mãe afirma que, no momento da saída da UPA, a médica responsável informou que os exames da filha haviam sido extraviados. Ela contesta a informação e diz que teve acesso aos resultados somente depois da morte da bebê, sustentando que os exames haviam sido realizados e não estavam perdidos.
A situação teria piorado durante o atendimento no Hospital de Câncer. A criança chegou à unidade por volta das 15h27, com soro na veia e recebendo oxigênio. Segundo a mãe, após a administração de um medicamento, a parte interna e externa da boca da filha ficou amarelada, com pontos escuros.
Ao perceber a alteração, ela procurou uma enfermeira, que interrompeu o procedimento e chamou o médico. Conforme o relato, o profissional suspendeu a medicação e informou que a menina precisava ser transferida imediatamente para um hospital com UTI, pois o quadro era grave e a unidade não dispunha do suporte necessário.
A bebê foi encaminhada ao Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, onde chegou por volta das 18h30. Segundo a mãe, a criança foi levada diretamente à sala vermelha e submetida à intubação, mas não apresentou melhora.
Na sequência, a equipe informou que seria necessário levá-la ao centro cirúrgico para a colocação de um acesso e a realização de uma drenagem. Durante o deslocamento, a mãe relata que houve problemas com o equipamento de oxigênio.
Segundo ela, a equipe retirou o aparelho utilizado até então para conectá-lo a outra máquina, mas não conseguiu fazê-la funcionar. A criança permaneceu intubada e, diante da dificuldade, os profissionais recorreram à ventilação manual. A mãe afirma que ouviu integrantes da equipe dizerem que o equipamento funcionava de forma improvisada, no chamado “modo gambiarra'.
Ainda conforme o relato, o aparelho voltou a funcionar durante o trajeto, mas parou novamente. A equipe retomou o uso manual do oxigênio e conseguiu religar o equipamento ao chegar ao destino.
Após o procedimento, a mãe foi informada de que a filha havia sido encaminhada à UTI. Ela conta que precisou insistir para entrar no local, pois a equipe ainda organizava o atendimento da criança.
Já na unidade intensiva, recebeu a informação de que o quadro era grave. Segundo o relato, a pneumonia havia evoluído, e a bebê apresentava sangramento pulmonar, desidratação e anemia. Foram administradas bolsas de sangue e adrenalina, mas não houve resposta satisfatória ao tratamento.
A mãe afirma que a filha foi submetida a várias tentativas de reanimação, enquanto os batimentos cardíacos e a saturação de oxigênio continuavam caindo. O óbito foi constatado às 4h35 de 11 de outubro, conforme a certidão de óbito.
Quadro grave - O prontuário médico da Fundação Carmen Prudente registra que a bebê foi atendida em 10 de outubro, encaminhada pela UPA Universitário com diagnóstico de broncopneumonia não especificada.
O documento descreve insuficiência respiratória aguda hipoxêmica, dificuldade para respirar, baixa oxigenação, sonolência e hipoatividade, mesmo após o tratamento com antibióticos. Também informa que a criança estava havia quatro dias em tratamento com amoxicilina associada a clavulanato, sem melhora clínica satisfatória.
Durante a avaliação, foram registradas frequência cardíaca de 186 batimentos por minuto, frequência respiratória de 53 movimentos por minuto e saturação de oxigênio de 90%, mesmo com suplementação. O prontuário ainda aponta estertores pulmonares, gemência respiratória e retrações na região do tórax.
Diante da gravidade, a equipe solicitou transferência emergencial para um hospital terciário com UTI pediátrica e suporte ventilatório avançado. O registro recomendava monitoramento contínuo enquanto a criança aguardava a transferência, com prioridade para a estabilização respiratória.
A alta da unidade foi registrada às 20h45 de 10 de outubro, com justificativa de transferência para outro estabelecimento. A observação médica informa que a paciente foi encaminhada ao Hospital Regional por meio da regulação de emergência.
A certidão de óbito aponta como causas da morte insuficiência respiratória, choque séptico, septicemia, pneumonia, coagulação intravascular disseminada e hemorragia das vias respiratórias.
Os documentos descrevem a evolução clínica e os procedimentos realizados, mas não estabelecem, por si só, a existência de negligência ou falha na assistência médica.
Associação aponta dúvidas sobre encaminhamentos
O caso chegou à AVEM (Associação de Vítimas de Erros Médicos) de Mato Grosso do Sul, que informou já ter iniciado o acompanhamento da denúncia. O presidente da entidade afirmou que recebeu o histórico por meio de terceiros e que a família encaminhou informações sobre os procedimentos realizados durante os atendimentos.
Segundo ele, a associação pretende discutir o caso com um advogado. Também foi protocolada uma denúncia na 32ª Promotoria de Justiça do Ministério Público Estadual, que atua na área da Saúde.
O representante da entidade questiona o encaminhamento da bebê ao Hospital de Câncer e afirma que, na avaliação dele, a criança deveria ter sido direcionada a uma unidade pública de referência com estrutura para atendimento de casos graves, como o Hospital Regional, o Hospital Universitário ou a Santa Casa.
Ele também levanta dúvidas sobre a liberação inicial da criança para casa e defende que, diante da necessidade de medicação e observação, ela deveria ter permanecido sob acompanhamento médico até apresentar melhora ou ser transferida para um hospital com suporte adequado.
O presidente da associação afirma que a mãe relatou o episódio envolvendo a administração de medicamento no Hospital de Câncer e a mudança na coloração da boca da criança. Segundo ele, a mãe teria alertado a equipe de que a filha estava piorando, o que levou à interrupção do procedimento e à decisão de transferi-la.
O representante também relatou que a família mencionou dificuldades estruturais durante o atendimento e o transporte entre unidades, especialmente em relação à disponibilidade de UTI e ao suporte de oxigênio. A associação informou que busca os encaminhamentos necessários para que os fatos sejam apurados.
Investigação - A mãe registrou boletim de ocorrência na DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) nesta segunda-feira (19). O documento relata suspeitas de negligência no atendimento médico, incluindo problemas relacionados à administração de medicamentos, ao fornecimento de oxigênio e à assistência prestada à criança.
A ocorrência foi classificada como morte por causa indeterminada, sem indício de crime naquele registro. O documento informa ainda que os fatos foram comunicados ao Conselho Tutelar para a adoção das medidas consideradas cabíveis.
A família busca esclarecimentos sobre a sequência de atendimentos, as condições de transferência e os procedimentos realizados antes da morte da bebê. Até o momento, os documentos apresentados não comprovam que falhas médicas tenham provocado o óbito. A apuração dos fatos é necessária para esclarecer as circunstâncias da morte e verificar se houve eventual responsabilidade na assistência prestada.
Outro lado - O HCAA (Hospital de Câncer Alfredo Abrão) informou que a bebê Anna Laura foi admitida na unidade em 10 de outubro, às 15h05, transferida da UPA Universitário, com diagnóstico de pneumonia. Segundo o hospital, a equipe médica deu continuidade ao tratamento medicamentoso já iniciado, incluindo antibióticos, sem introdução de novas medicações durante a internação. A instituição afirmou que, conforme os registros clínicos analisados, não há anotação de reação adversa relacionada ao tratamento.
De acordo com o HCAA, às 17h20, diante da evolução do quadro clínico e da necessidade de atendimento em UTI pediátrica, foi solicitada a transferência para o HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul), serviço que dispõe desse tipo de atendimento. O hospital informou que providenciou uma ambulância de suporte avançado, com médico, enfermeiro e técnico, e que o transporte foi realizado por volta das 18h. A unidade ressaltou que a criança permaneceu em um leito semi-intensivo e recebeu os atendimentos disponíveis durante sua permanência, mas que o HCAA não possui UTI pediátrica.
Sobre os questionamentos relacionados aos medicamentos administrados, a possibilidade de suspensão de alguma medicação após manifestação da mãe e os detalhes do atendimento, o hospital alegou que as informações individualizadas estão protegidas pelo sigilo médico e pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A instituição também afirmou que não há confirmação, nos registros analisados, de suspensão de medicamento motivada pela manifestação relatada.
O HCAA declarou ainda que o atendimento seguiu os protocolos institucionais e que está à disposição para colaborar com as autoridades na apuração dos fatos. Segundo o hospital, não houve formalização de queixa pela família diretamente à instituição, que tomou conhecimento do relato por meio da imprensa. Ao lamentar a morte de Anna Laura, o hospital manifestou solidariedade aos familiares e reafirmou seu compromisso com uma assistência segura, responsável e humanizada.
Em nota, a Sesau informou que não fornece informações individualizadas sobre pacientes à imprensa ou a terceiros, em respeito à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) e aos direitos à intimidade e à vida privada. A secretaria afirmou ainda que os atendimentos seguem protocolos assistenciais e diretrizes técnicas, que orientam a avaliação dos pacientes e os encaminhamentos necessários. Sobre denúncias, a pasta declarou que todas são tratadas com seriedade e apuradas conforme os procedimentos institucionais e a legislação vigente, com adoção das medidas cabíveis quando necessário.
O HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul) lamentou a morte da paciente e afirmou que não comenta casos específicos, em respeito ao sigilo dos prontuários médicos e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais). O hospital também informou que prestará os esclarecimentos necessários no decorrer da investigação policial.
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