Além de separar resíduos, Lixo Zero exige comprovação de resultados

Ceasa destinou 1,4 mil toneladas em 2025 e reúne documentos para buscar a certificação em 2027

| INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


Trabalhadores da Ceasa em meio a fardos de reciclagem e ao lado da prensa (Osmar Veiga)

Na Central de Gestão de Resíduos da Ceasa/MS (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), frutas e verduras que sobram da movimentação diária seguem para compostagem. Madeira, papelão e plástico são separados para reciclagem. Esse trabalho começou a ser estruturado em 2019. Agora, para buscar a Certificação Lixo Zero, a Ceasa precisa comprovar os resultados com números e documentos.

Grupo Real, também de Campo Grande, começou a organizar a destinação de seus resíduos em 2007 e já obteve a Certificação Lixo Zero. Segundo a empresa, 98% dos resíduos que gera são encaminhados para outros destinos, sem passar pelo aterro sanitário.

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Esta reportagem integra uma série sobre as mudanças na gestão dos resíduos e o caminho até a certificação. Na Ceasa, esse percurso já dura anos, além de manter a separação todos os dias, a instituição precisa documentar o destino dos materiais e passar por uma auditoria.

No pátio, funcionários varrem o chão e transportam materiais em carrinhos, em meio às pilhas de caixotes de madeira. Segundo o analista administrativo Rodrigo de Oliveira Xavier, cerca de 20 trabalhadores da manutenção limpam as áreas comuns do entreposto, recolhem os resíduos e fazem uma primeira separação. Depois, os materiais seguem para a Central de Gestão de Resíduos, onde a equipe da usina volta a classificá-los.

Entre caixotes de madeira empilhados e sacos de materiais recolhidos no entreposto, trabalhadores operam a prensa que compacta os recicláveis. É nessa etapa da rotina que atua Evaldo Pereira Pires, subencarregado da Usina de Coleta e Seleção de Resíduos.

Há um ano na Ceasa, ele destaca a importância de separar corretamente o que chega à central. “É uma atividade que contribui para a preservação do meio ambiente, ajuda a dar a destinação correta aos resíduos e também é uma forma de colaborar com o mundo em que a gente vive', afirma.

Ao chegar às mãos de Evaldo e dos colegas, o material volta a ser classificado. Papelão é separado dos plásticos, que também são divididos conforme suas características, antes de serem prensados para a venda.

Rodrigo explica que o cuidado evita que a equipe tenha de refazer o serviço. Ele lembra que, quando recicláveis chegavam misturados aos restos de alimentos ou à madeira, parte do material precisava ser separada novamente. Fardos com resíduos misturados também perdiam valor. Com o aprimoramento da triagem, a Ceasa faturou 30% a mais com a reciclagem em 2025 do que em 2024. O aumento se refere à receita da venda dos materiais, não ao lucro total da instituição.

Parte desse resultado chega aos funcionários em forma de remuneração. Conforme o administrador, uma parcela da receita obtida com os recicláveis é distribuída aos colaboradores no fim do ano. Ele compara o pagamento a “quase como o 14º salário'.

O destino dos materiais - Em 2025, a Ceasa destinou 1.404.803,60 quilos de resíduos, cerca de 1,4 mil toneladas. As frutas, os legumes e as verduras somaram 699.880 quilos; a madeira, 447.730 quilos. Ambos foram encaminhados à Organoeste para compostagem. Outros 254.793,60 quilos de recicláveis seguiram para a Colecta. Assim, 1.402.403,60 quilos foram enviados à compostagem ou à reciclagem, uma média calculada de 116,9 toneladas mensais.

Segundo o analista administrativo, o contrato com a empresa de compostagem prevê a devolução de parte do material em forma de adubo. Em parceria com a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), a Ceasa repassa esse composto a pequenos produtores. O restante do balanço de 2025, 2.400 quilos, foi classificado como rejeito e encaminhado à CG Solurb, que o destina ao aterro sanitário.

As saídas que ainda faltam - Há ainda alguns materiais, como o isopor e os sacos de cebola, que a Ceasa encontra dificuldades de aproveitamento na região. Conforme o administrador, a equipe já consultou empresas de Mato Grosso do Sul e busca contatos em São Paulo (SP) para encontrar alternativas.

Rodrigo explica que o envio precisa reunir quantidade suficiente de material para ser viável, mas a central não pode mantê-lo armazenado por muito tempo, pelo risco de atrair vetores.

Ele estima entre R$ 170 mil e R$ 180 mil por ano as despesas com transporte e compostagem contratados de terceiros, sem incluir a folha de pagamento. O custo do frete, conforme ele, é rateado entre as empresas que operam no entreposto, conforme os resíduos que geram.

Sete anos de percurso - A Ceasa implantou sua Central de Gestão de Resíduos há sete anos e a preparação específica para buscar a Certificação Lixo Zero começou em junho de 2026. Desde então,  a Central conta com o trabalho de consultoria da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul) acompanhada pela gerente de Sustentabilidade da federação, Cláudia Borges.

Cláudia avalia que a Ceasa já tem uma rotina de separação e acompanhamento dos resíduos e, atualmente, está na etapa de preparação para a certificação. Segundo ela, a consultoria trabalha com a instituição para reunir os registros de quantidade e destinação de cada material e identificar soluções para os resíduos mais difíceis de encaminhar. O processo é mais complexo porque a central também administra o que é gerado pelos permissionários.

Rodrigo espera que a Ceasa consiga a certificação no início de 2027. Trata-se de uma previsão, dependente da conclusão dos preparativos e da avaliação do Instituto Lixo Zero Brasil. “É para que, quando a gente sofrer a auditoria do Instituto Lixo Zero, consiga comprovar isso, tanto na prática quanto na teoria também', diz.

Ele também quer envolver mais os permissionários, as empresas que comercializam produtos dentro da Ceasa e geram parte dos resíduos tratados pela central. “Muito mais do que orientar, é a gente dar o exemplo.'

Rumo ao lixo zero - Para a pesquisadora e professora Maira Portugal, presidente do IBRAPARC (Instituto Brasileiro de Pesquisa Aplicada em Resíduos e Clima), o primeiro passo de uma empresa é descobrir o que descarta, em que quantidade e em qual setor. Só assim é possível identificar desperdícios e decidir onde agir primeiro. “Quem mede, melhora; quem não mede, apenas imagina que melhora', afirma.

Maira ressalta que separar os recicláveis não basta, pois a empresa também precisa evitar a geração de resíduos, rever compras e embalagens e comprovar a destinação do que descarta. Cláudia Borges destaca a importância de definir o caminho de cada material e orientar as pessoas a separá-lo no momento do descarte. Na Ceasa, esse trabalho depende tanto das equipes que fazem a triagem quanto da participação de quem gera os resíduos no entreposto.

Uma experiência mais adiante - Enquanto a Ceasa se organiza para comprovar a gestão de resíduos, outra empresa de Campo Grande mostra como uma iniciativa pode se ampliar com o tempo. O Grupo Real criou o Programa Ciclos em 2007, por iniciativa do diretor técnico-industrial e sócio-proprietário Mário Renck Real, para organizar a destinação dos resíduos da empresa. O que começou com a coleta de recicláveis cresceu e ganhou um Departamento de Sustentabilidade. Em reportagem anterior do Campo Grande News, Mário resumiu a atitude que deu início ao projeto: “Prefiro fazer alguma coisa do que não fazer nada'.

Na indústria, o vidro recolhido é triturado e usado como cascalho em vias internas e jardins. O grupo também capta água da chuva e a reutiliza em atividades como limpeza externa, jardinagem e sanitários. O Ciclos passou a reunir, além da gestão dos resíduos, outras ações ambientais e sociais. Os resíduos orgânicos seguem para compostagem; e papéis, plásticos e embalagens industriais são separados. A unidade também utiliza energia solar.

Essas iniciativas contribuíram para que o grupo recebesse o Selo ESG da Fiems, tornando-se, segundo a federação, a primeira indústria de Mato Grosso do Sul a obter o reconhecimento, que avalia práticas ambientais, sociais e de governança. Em abril de 2026, a empresa obteve também a renovação da Certificação Lixo Zero. Diferentemente do Selo ESG da Fiems, esse reconhecimento é voltado à gestão dos resíduos.

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