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Após duplo homicídio, moradores dizem que Rochedo já não é tão tranquila
Moradores relatam preocupação após duas jovens serem mortas e casa incendiada durante a madrugada
| CLARA FARIAS E BRUNA MARQUES, ENVIADA ESPECIAL A ROCHEDO / CAMPO GRANDE NEWS
O medo de que a violência tenha chegado a uma cidade acostumada à tranquilidade tomou conta dos moradores de Rochedo, a cerca de 80 quilômetros de Campo Grande, após duas mulheres serem assassinadas e encontradas dentro de uma casa incendiada nesta quarta-feira (23). A Polícia Civil investiga o caso, que, a princípio, está sendo tratado como duplo homicídio qualificado.
Nascido e criado no município, o funcionário público Carlos Matricardi, de 54 anos, diz que o crime aumentou a preocupação da população e afirma que já não existe a mesma sensação de segurança de antes. “Medo, podemos dizer que não temos. Nós ficamos preocupados. Mas eu creio que a gente tem que tocar a vida normal e ter mais segurança, mais cuidado', disse.
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Carlos conta que acompanhou o crescimento de Rochedo e lembra que a cidade sempre foi vista como um lugar tranquilo para morar. Ele também cita outros episódios recentes de violência como motivo de preocupação. “Hoje estou com 54 anos. Tenho a honra de que meu avô foi um dos pioneiros da cidade. Aqui é uma cidade feliz, tranquila. Mas, ultimamente, vêm acontecendo esses casos', relatou.
A preocupação também aparece entre quem chegou à cidade há menos tempo. Um comerciante de 56 anos, que mora em Rochedo há cerca de dois anos, conta que ficou assustado ao saber do assassinato das duas jovens. “É ruim, né? Fica com medo. A bandidagem chegando assim na cidadezinha desse tamanho é complicado. Cidade tranquila, pequenininha, todo mundo conhece todo mundo', afirmou.
Para ele, o fato de os autores ainda não terem sido identificados aumenta a apreensão. “Sensação ruim. Vai saber quem que é e o porquê também', disse.
Caso - Duas amigas, identificadas como Vitória Gabriely Souza Cordeiro, de 19 anos, e Ellen Vitória Moreira da Cruz, de 20 anos, foram mortas a facadas e depois tiveram a casa incendiada na madrugada desta quarta-feira (23), em Rochedo. Conforme a Polícia Civil, o crime aconteceu por volta das 3h. O caso aconteceu a cerca de 200 metros da delegacia.
Servidores de um CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) viram a fumaça saindo da casa das jovens e foram até o local para tentar conter as chamas. Após apagarem o incêndio, perceberam que havia dois corpos no imóvel. Um irmão de criação, que morava com Vitória Gabriely, presenciou o ocorrido e está sendo ouvido pela Polícia Civil.
O irmão de Vitória Gabriely Souza Cordeiro, de 19 anos, acredita que a jovem acabou sendo morta por estar na companhia da amiga, que, segundo ele, teria procurado abrigo na casa da família após deixar Terenos. Gabriel Almeida Cordeiro, de 29 anos, afirmou que a irmã não tinha envolvimento com o crime e acredita que ela foi vítima por ter acolhido a amiga.
“Eu acho que minha irmã deu asilo para ela. Ela veio atrás dessa cobrança de dívida, alguma coisa com a facção, que eu não sei. E minha irmã estava junto, por dar essa moradia para ela. Acabou entrando também no meio da confusão', contou.
Segundo Gabriel, Vitória morava em Rochedo havia cerca de três ou quatro meses, desde que começou a trabalhar em uma agropecuária na cidade. Antes, ela vivia com a família em uma chácara. O plano, conforme o irmão, era que ela deixasse a casa alugada e voltasse para a propriedade rural.
“Meu pai ia passar ontem para buscar ela. Ela ia embora ontem e voltar para a chácara que a gente mora. (...) Ela trabalhava aqui e, para ficar mais próximo, ficava nessa casa', relatou.
O irmão afirmou que a família não conhecia Ellen e que a jovem havia surgido recentemente na vida de Vitória. Ele também disse que a irmã não tinha histórico de envolvimento com drogas. “Minha irmã é 100%. É uma guria tranquila. Se ela vê um cachorro machucado, ela chora. Não tem como mexer com nada de tráfico, nada desses trem mais graves', afirmou.
Sobre a presença de drogas na residência, informação confirmada pela Polícia Civil, Gabriel disse não saber se Vitória fazia uso de entorpecentes. “Vício eu não sei, mas provavelmente deveria ter alguma coisa. Para ela estar aqui num ambiente desse', afirmou.
Para ele, Vitória estava “no lugar errado, na hora errada'. “Essa guria que está aqui, ela só deu asilo para ela. Só deixou a guria ficar aí', disse.
Gabriel também afirmou conhecer o rapaz que morava na casa com as duas vítimas. Segundo ele, o jovem era considerado irmão de criação de Vitória, já que convivia com a família na chácara. “Vivia na nossa chácara lá, tomando banho de rio, pescando com a gente. É um guri tranquilo', contou.
Equipes da Força Tática de Campo Grande, o GOI (Grupo de Operações e Investigações) e demais forças de segurança estão na região em busca dos autores do crime.
Outro crime que chocou
O novo caso também fez moradores lembrarem de um crime ocorrido em Rochedo em 2025, quando Rosimeire Vieira de Oliveira, de 37 anos, o filho dela, de 14, e a mãe, Irailde Vieira Flores de Oliveira, de 83, foram encontrados mortos e carbonizados dentro de uma casa em chamas.
Na ocasião, o ex-companheiro de Rosimeire, Higor Thiago Santana de Almeida, de 31 anos, foi preso. Segundo a investigação divulgada à época, a mulher havia pedido socorro a uma amiga por mensagens e relatado que havia alguém dentro da residência. O caso foi tratado como feminicídio.
A comparação, no entanto, é feita pelos próprios moradores a partir da sensação de insegurança, já que as circunstâncias dos dois crimes são diferentes. No caso desta quarta-feira, o delegado Valmir Moura afirmou que, até o momento, a investigação trata as mortes das duas mulheres como duplo homicídio qualificado, e não como feminicídio.
Uma moradora de 28 anos, que vive próximo ao imóvel onde ocorreu o crime, contou que conhecia Vitória Gabriely Souza Cordeiro, de 19 anos, uma das vítimas. “Eu fico com medo, porque eu tenho quatro filhos pequenos. Eu tenho que ficar com medo', disse.
A moradora afirmou ainda que havia comentários na região sobre o envolvimento das vítimas com drogas. A Polícia Civil encontrou porções de cocaína na casa e investiga se as drogas têm alguma relação com o duplo homicídio.
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