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Depois de retomar a terra, indígenas criam brigada para protegê-la do fogo
Filme mostra como comunidade transformou luta pelo território e contra queimadas em resistência e preservação
| THAILLA TORRES / CAMPO GRANDE NEWS
Há pouco mais de 20 anos, 21 famílias se uniram para retomar um território em Miranda e deram início à comunidade indígena Mãe Terra. Anos depois, diante de outra ameaça ao lugar onde vivem, os moradores precisaram novamente se organizar. Desta vez, contra o fogo que avança pelo Pantanal. Essa trajetória de resistência, que passa pela terra, pelas queimadas e pela preservação da cultura Terena, é contada no documentário “Chamas da Tradição'.
Produzido pela cineasta sul-mato-grossense Thauanny Maíra, de 26 anos, o filme parte de uma frase que ajuda a explicar a relação retratada na tela: “Não tem povo sem terra, nem terra sem povo'.
A comunidade Mãe Terra existe desde 2005 e surgiu a partir da ação de retomada realizada por um grupo de 21 famílias. É por essa história que o documentário começa, antes de chegar a um problema que se tornaria cada vez mais presente no cotidiano da aldeia: os incêndios.
“No segundo ato do filme focamos no fogo, como ele chega e acaba com tudo, deixando frágil e complicada a relação do povo com a terra, deixando mais difícil conseguir recursos', explica Thauanny.
Inicialmente, aliás, eram justamente os incêndios no Pantanal que deveriam ocupar o centro do documentário. Durante a pesquisa e a aproximação com a comunidade, no entanto, a equipe percebeu que havia uma história maior a ser contada.
Segundo o roteirista Cainã Siqueira, entender as queimadas também exigia compreender os efeitos delas sobre quem vive naquele território.
“Daí começou a surgir o argumento baseado em como essas queimadas influenciavam direta e indiretamente na terra indígena Mãe Terra, no cultivo, no dia a dia, em tudo. Mas na visita que fizemos, ficou muito claro que o fogo não era o protagonista, a Mãe Terra, com todos os seus personagens, virou a protagonista, então virou um filme sobre essa luta deles contra as queimadas, mas também sobre a retomada e sobre a aldeia em si', resume.
Quando a própria comunidade enfrenta o fogo - Diante das queimadas recorrentes, os moradores encontraram uma forma de reagir. A partir de 2020, a Mãe Terra passou a contar com brigadas voluntárias formadas na própria comunidade.
São esses moradores que atuam para impedir que as chamas se espalhem enquanto aguardam a chegada do Corpo de Bombeiros e das equipes do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo).
As mulheres também participam das brigadas, em uma mobilização que transformou a defesa do território em responsabilidade compartilhada pela comunidade.
Mas proteger a Mãe Terra, mostra o documentário, não significa apenas impedir que o fogo avance.
Outra iniciativa registrada pelo filme é a Escola Quintal, criada para ajudar no resgate da cultura Terena. Semanalmente, moradores se encontram para praticar costumes que haviam se perdido ao longo do tempo ou que chegaram a se tornar desconhecidos para algumas gerações.
Antes de ligar as câmeras, a equipe também precisou se aproximar dessa rotina. A produção envolveu pesquisa e uma visita prévia à aldeia para conhecer famílias, culinária, músicas, tradições religiosas e os desejos da comunidade.
Depois dessa preparação, as gravações foram concentradas em apenas dois dias. E nem o tempo colaborou completamente.
“Em um dos dias ficou chovendo bastante, então a gente teve que se virar do jeito que dava para a chuva não estragar o áudio, para a gente conseguir gravar, não molhar os equipamentos... Mas quando você está fazendo o que ama, qualquer perrengue vira história para contar', conta Thauanny.
Histórias para diminuir distâncias - “Chamas da Tradição' é dirigido por Thauanny, que atualmente vive em São Paulo e trabalha como diretora, roteirista e diretora de pós-produção. Cainã Siqueira assina o roteiro.
Apesar dos 26 anos, este não é o primeiro documentário da sul-mato-grossense. Aos 20, ela dirigiu “A Margem é o Centro', sobre o bairro Moreninhas, em Campo Grande.
Para Thauanny, aproximar o público de realidades que muitas vezes conhece apenas de longe é uma das possibilidades do audiovisual.
“Minha ligação com o documentário é conhecer outros pontos de vista, entender mais sobre as histórias, mas também apresentar para outras pessoas, para quebrar um pouco do estigma que elas criam sobre assuntos que não conhecem. O preconceito muitas vezes vem do desconhecimento, e trabalhos como esse ajudam a gente a entender o lado do outro', afirma a cineasta.
Na convivência com a Mãe Terra, a equipe diz ter levado como principais aprendizados justamente a relação da comunidade com o território, o cuidado com a natureza e a preocupação em manter vivos os conhecimentos e ensinamentos ancestrais.
Filme voltou para onde a história começou - Após pronto, “Chamas da Tradição' começou a circular na última semana. O documentário foi exibido no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), no dia 21, e chegou também à própria Aldeia Mãe Terra, onde os moradores assistiram ao resultado no sábado (22).
No dia 24, houve ainda uma sessão para estudantes da disciplina de Análise Fílmica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Para João Leôncio (Kambu), vice-cacique da Mãe Terra, o registro também representa uma maneira de fazer a história atravessar gerações.
“A importância desse documentário é que fica registrado para as crianças, que não vão conhecer mais [a história da comunidade], né? Para a preservação da nossa identidade, da língua, dos artesãos, da espiritualidade. Então, isso vale muito para a gente. Espero que grupos vejam e queiram apoiar esse trabalho de resgate da língua, revitalização das nascentes, recuperação das florestas para equilíbrio do meio ambiente', comenta.
As sessões em instituições de ensino também permitiram que Thauanny compartilhasse com jovens parte do caminho até conseguir trabalhar com audiovisual.
“No IFMS foi interessante para mostrar como foi a minha trajetória até chegar nesse momento, mostrar para esses jovens que é difícil entrar nesse mercado, mas que é possível, falar sobre as dificuldades, sobre o processo criativo, apresentar uma nova perspectiva para quem se interessa. Na UFMS, tivemos a exibição para alunos do curso de Audiovisual, onde falei sobre os processos de pré e pós-produção', conta a diretora.
Agora, o documentário deve continuar circulando. Uma sessão aberta ao público está prevista para Campo Grande, ainda sem data divulgada. A equipe também planeja levar o filme a escolas públicas e inscrevê-lo em festivais.
“Chamas da Tradição' foi financiado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022, a Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), no Edital nº 09/2023.