MS mantém taxa de quase 68% de cesáreas e estudo alerta para novo fator de risco

Pesquisa identificou maior probabilidade de câncer de placenta entre pacientes com histórico de cesarianas

| KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS


Bebê sendo retirado da barriga da mãe por parto cesariano, em ambiente hospitalar (Foto: R7)

Sete em cada dez partos realizados em Mato Grosso do Sul ocorrem por cesariana. A proporção, que chegou a 67,6% em 2025, manteve-se praticamente estável nos cinco primeiros meses deste ano, em 67,7%. Os números ganham relevância após pesquisadores identificarem que a cirurgia pode representar um fator adicional de risco para o desenvolvimento de um tipo raro de câncer em mulheres que tiveram mola gestacional.

A mola gestacional é uma alteração rara provocada por uma fecundação anormal. No lugar de uma placenta saudável, forma-se um tecido anormal dentro do útero, tornando a gravidez inviável. Em alguns casos, não há formação de embrião; em outros, há um feto com alterações genéticas incompatíveis com a vida.

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De janeiro a maio de 2026, Mato Grosso do Sul registrou 12.768 partos, dos quais 8.647 foram cesáreas. Em todo o ano passado, foram contabilizados 39.334 nascimentos, sendo 26.600 por procedimento cirúrgico, conforme dados do DataSUS (Departamento de Informações do SUS).

O alerta vem de um estudo liderado por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que encontrou risco 45% maior de neoplasia trofoblástica gestacional entre pacientes que já haviam passado por cesariana.

Essa conclusão não significa que mulheres submetidas a cesáreas tenham, de maneira geral, risco 45% maior de desenvolver câncer. A associação foi identificada especificamente entre pacientes que posteriormente apresentaram uma mola gestacional.

No estudo, 26,5% das mulheres com histórico de cesariana desenvolveram a neoplasia, ante 20,8% entre aquelas que nunca haviam passado pela cirurgia. Os pesquisadores afirmam que outros fatores que poderiam interferir no resultado foram controlados durante a análise.

A médica Gabriela Paiva, líder da pesquisa, explica que a principal hipótese é de que a cicatriz deixada pela cesárea torne uma região do útero mais vulnerável à invasão das células da mola.

“A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero', afirma. Segundo ela, essa região poderia funcionar como uma “porta de entrada' e facilitar o avanço da doença para a parede uterina.

O coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da UFRJ, Antônio Braga, ressalta que a cesariana continua sendo um procedimento essencial quando há indicação médica.

“Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê', afirma. O pesquisador pondera, porém, que o procedimento deve ser realizado de forma consciente e que o novo achado precisa ser considerado entre os possíveis riscos de longo prazo.

A pesquisa analisou dados de 2.904 pacientes atendidas entre 2002 e 2022 na Maternidade Escola da UFRJ e no Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Segundo os autores, a neoplasia trofoblástica gestacional é a consequência mais grave da mola. Em até 20% dos casos, as células anormais permanecem no útero e evoluem para câncer.

Braga destaca que o acompanhamento em unidades especializadas é decisivo para reduzir complicações. “É fundamental que essas mulheres sejam atendidas em um centro de referência', afirma.

O tratamento inclui a retirada da mola, o acompanhamento periódico dos níveis do hormônio hCG (gonadotrofina coriônica humana) e, quando há evolução para câncer, quimioterapia. De acordo com o pesquisador, a maioria das pacientes tratadas adequadamente alcança a cura e pode voltar a engravidar.

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