Testemunhas afirmam que Casares retirava cerca de R$ 100 mil em espécie do São Paulo por mês

Duas pessoas interrogadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público revelam movimentação de dinheiro do clube pelo ex-presidente: "Tinha uma sacola para colocar dentro e ele levar embora"

| GLOBOESPORTE.COM / BRUNO GIUFRIDA


Julio Casares em Flamengo x São Paulo — Foto: Jorge Rodrigues/AGIF

Duas testemunhas interrogadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público detalharam como o ex-presidente Julio Casares retirava dinheiro em espécie do São Paulo, em envelopes e sacolas, pelo menos uma vez por mês. Os valores de cada retirada giravam em torno de R$ 100 mil, de acordo com os depoimentos.

O ex-dirigente é um dos investigados por uma Força Tarefa por possíveis irregularidades cometidas durante sua gestão no clube, de janeiro de 2021 a janeiro de 2026.

Procurado, Julio Casares disse, em nota enviada por sua defesa, que "tudo se acha regularmente acautelado na Contadoria do Clube" e que as movimentações em dinheiro vivo são referentes a "no mínimo, 172 jogos do SPFC em diversas competições". Veja o posicionamento completo ao fim da reportagem.

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O ge obteve acesso com exclusividade aos depoimentos das duas testemunhas consideradas cruciais para o desenrolar das investigações. A identidade das pessoas ouvidas pelo delegado Tiago Fernando Correia, da Polícia Civil, e pelos promotores José Reinaldo Carneiro e Tomás Ramadan, do Ministério Público, será preservada.

As testemunhas trabalhavam diretamente com o ex-presidente Julio Casares no São Paulo, do início ao fim de sua gestão, e responderam aos questionamentos da Força Tarefa que conduz três inquéritos policiais sob "o compromisso de dizer a verdade".

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Um dos inquéritos que tem Casares como alvo investiga um possível desvio de capitais. Foram detectados 35 saques das contas do clube, totalizando R$ 11 milhões, entre janeiro de 2021 e novembro de 2025. Depósitos em dinheiro somando R$ 1,5 milhão em contas do ex-presidente também são investigados.

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Em março deste ano, o Conselho Deliberativo do São Paulo reprovou as contas de 2025 sob o argumento de que não há justificativa para grande parte dos valores sacados das contas do clube nos últimos anos, a mando de Julio Casares. De acordo com um relatório interno, quase R$ 7 milhões não têm explicação nem comprovação de gastos.

As testemunhas ouvidas pela investigação da Polícia Civil e do Ministério Público revelaram que o ex-presidente possuía uma rotina mensal de retirada de dinheiro do São Paulo, em frações de pelo menos R$ 100 mil, até o fim da gestão.

– Era um valor variável, acho que uma vez por mês. Isso (acontecia uma vez por mês). R$ 100 mil, R$ 115 (mil), R$ 118 (mil)… R$ 100 (mil), R$ 109 (mil) e R$ 118 (mil). Isso, em dinheiro. Num envelope, dentro de uma pasta "polionda". O envelope vinha fechado, com plástico a vácuo. Então, eu não contava o valor, porque ele já vinha fechado. E tinha um recibo que especificava o valor – disse uma das testemunhas.

De acordo com os depoimentos, os recibos justificavam que esses valores seriam para "ações promocionais". Não havia explicações, porém, sobre quais eram essas ações promocionais e seus resultados. Depois, ainda de acordo com as testemunhas, o ex-presidente justificava as retiradas para "adquirir ingressos". O São Paulo não possui nenhum registro de quais seriam esses ingressos.

– Ele comprovava com o recibo que era encaminhado. É um recibo de aquisição de ingresso, que é o que ele fazia. Eles mandavam um encaminhamento de ação promocional, que eu não sei qual é a ação promocional. E depois, na cobrança, ele (Julio Casares) (...) assinava um documento... Ele não, o representante dele (assinava), de que eram ingressos adquiridos para dia de jogo. Tem uma série de jogos – explicou outra testemunha.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de esclarecer para onde ia esse dinheiro, uma das testemunhas respondeu:

– Eu não consigo esclarecer. Quem tem que esclarecer isso ao senhor é o presidente. (São) quase R$ 7 milhões. Eu tenho a documentação, o recibo, que foi utilizado para aquisição de ingressos pela presidência. É isso que a gente tem.

O São Paulo possui um caixa mínimo para uso no dia a dia, quando necessário, como para o pagamento de premiação aos jogadores, de acordo com uma das testemunhas. À época, esses valores eram solicitados pelo departamento de futebol e pela presidência ao departamento financeiro, que encaminhava a solicitação aos bancos onde está o dinheiro do clube. Há um cofre no setor administrativo do Morumbis para guardá-los.

– Quando havia a solicitação do futebol profissional e da presidência, a gente solicitava esse dinheiro via carro forte no banco. O carro forte vinha e trazia esse dinheiro ao São Paulo.

Julio Casares, afirmou uma das testemunhas, solicitava valores ao departamento financeiro para as "ações promocionais em eventos", mas sem especificações mais claras. O dinheiro era retirado justamente do cofre do Morumbis para que fosse colocado em envelopes e entregues à presidência.

– Ele não me falava que tipo de ação promocional era executada. Não pedia para mim. A destinação da ação promocional não era falada – explicou uma das testemunhas.

– Esse recibo na pasta com dinheiro estava escrito que era para ação promocional. Ele (gerente financeiro) entregava com a pasta e ficava na pasta. Era entregue juntamente com o dinheiro. A via física que vinha com o dinheiro ficava dentro da pasta, não era devolvida – disse a outra.

A rotina de retirada

Segundo os depoimentos, os valores pedidos por Julio Casares ao departamento financeiro eram entregues em envelopes na sala da presidência, no segundo andar do Morumbis. O ex-presidente preparava, de acordo com as testemunhas, uma sacola para que o dinheiro em espécie fosse colocado.

– Às vezes, o presidente falava: "vai chegar um valor", "já chegou?", "não, não chegou", "então veja, por favor, se já está aí, se já vai chegar". Algumas vezes eu perguntei para o José Luiz (gerente financeiro) ou para o Sergio (Pimenta, diretor financeiro) se estava certo, se havia uma previsão, aí às vezes falavam "não, não vem hoje", "vem amanhã". Sim (só perguntava após questionamentos do presidente).

– Normalmente, quando acontecia, tinha uma sacola. Para a gente colocar dentro de uma sacola para ele (Julio Casares) levar embora – completou a testemunha.

As notas de reais entregues em envelopes à presidência continham, de acordo com a testemunha, recibos que chegaram a ser assinados por quem recebia, pelo próprio Julio Casares ou por Marcio Carlomagno, ex-superintendente geral do São Paulo e braço direito do ex-presidente.

– Em algumas ocasiões veio um recibo, eu me recordo de ter assinado alguma vez, aí até perguntei por que eu tinha que assinar, e depois falaram que não precisava mais assinar. Eu não posso assinar o recebimento de um valor que não fica comigo. Eu não sei se o presidente Julio assinou algum, ou o Marcio assinou algum também, e aí depois ninguém mais precisava assinar. Mas eu me recordo que em algumas ocasiões eles assinavam – revelou.

– Fui comunicado que era R$ 100 (mil), R$ 120 (mil), R$ 118 (mil)… Depende do mês. R$ 120 mil, R$ 118 mil… Valores menores… Depende da ação que ele (Julio Casares) estava proposto (sic) a fazer. Saía como um adiantamento para ações promocionais e depois ele era convidado a prestar contas. Encaminhava um recibo de gastos que fez com aquisição de ingressos – complementou a outra testemunha.

Uma das testemunhas, que trabalha no clube desde o início do século, respondeu que nunca havia presenciado ou intermediado entregas de dinheiro em espécie para outros ex-presidentes, como era com Julio Casares.

A testemunha foi questionada se já havia feito este tipo de transação financeira em outras ocasiões, sob a gestão de outros presidentes, mas respondeu que essa prática começou no início de 2021.

– Não (não intermediei esse tipo de entrega financeira). Sim (era uma novidade). Ele pegava de cima da mesa dele. (...) Eu acho que (acontecia) todo mês, ou uma ou duas vezes ao mês, mas não sei precisar quantas vezes. (...) Que eu me recordo, sim (aconteceu desde o primeiro mês da gestão).

Os pedidos de dinheiro feitos pela presidência do São Paulo de 2021 a 2026 não eram contestados, apontou uma das testemunhas, mas causavam "constrangimento" interno. Julio Casares costumava deixar o Morumbis acompanhado de segurança e motorista.

Julio Casares foi presidente do São Paulo até janeiro de 2026, quando sofreu impeachment no Conselho Deliberativo e renunciou ao cargo antes de o caso ser levado a assembleia geral entre os sócios. Desde então, Harry Massis, que era o vice, assumiu a presidência – e nunca pediu dinheiro vivo ao departamento financeiro, de acordo com as testemunhas.

Procurada pela reportagem, a Força Tarefa destacou a gravidade dos fatos, porque eles confirmam documentos que já fazem parte da investigação.

Os depoimentos, inclusive, foram enviados oficialmente ao São Paulo para que o clube tenha ciência do que foi dito pelas testemunhas e para servir como base para o andar das investigações da Comissão de Ética, que também apura possíveis irregularidades na gestão de Julio Casares.

Alvo de disputa

Os dois depoimentos aos quais o ge obteve acesso se tornaram alvo de uma disputa entre a Força Tarefa e a defesa de Julio Casares. Em abril, os advogados do ex-presidente entraram com um mandado de segurança pedindo a interrupção das investigações justamente por causa das oitivas das testemunhas.

A defesa de Casares solicitou à Polícia Civil para participar dos depoimentos, mas o pedido foi recusado. Os advogados, então, entraram com um pedido para suspender as investigações alegando que teriam o direito de fazer perguntas para as testemunhas. A tentativa de barrar imediatamente as investigações, com liminares, foi negada pelos juízes e desembargadores que acompanham o caso. O mérito ainda não foi julgado.

As investigações

Desde o ano passado, a Polícia Civil e o Ministério Público investigam possíveis irregularidades cometidas por diretores do clube na gestão do então presidente Julio Casares.

Neste momento, a Polícia Civil e o MP conduzem três inquéritos distintos (veja abaixo). Todos tratam o São Paulo como vítima de possíveis esquemas. As investigações apuram se dirigentes, nos últimos anos, praticaram atos que lesaram o clube em três frentes diferentes:

Possível lavagem de capitais;O caso de exploração clandestina de um camarote do Morumbis;Possível corrupção no clube social.

Em 15 de dezembro do ano passado, o ge revelou que Douglas Schwartzmann, diretor adjunto de futebol de base do São Paulo, e Mara Casares, ex-esposa do presidente Julio Casares e diretora feminina, cultural e de eventos, participavam de um esquema que lesava o clube.

O Ministério Público, depois da publicação, solicitou à Polícia Civil a abertura de um novo inquérito. O pedido foi acatado.

Passou a ser investigado, então, mais um caso: o de exploração clandestina de um camarote no Morumbis – a essa altura, já se investigavam os saques das contas do clube e os depósitos de Julio Casares. Este inquérito também apura possível coação de Douglas e Mara contra Rita de Cássia Adriana Prado, a terceira pessoa na ligação à qual o ge teve acesso.

– E vou repetir uma coisa. Você é uma pessoa que a Mara confiou. Eu só entrei nisso porque a Mara me garantiu que você era de total confiança. Desde o primeiro dia que eu te falava isso. Não podemos fazer coisa errada aqui. Então, teve negócio que você ganhou dinheiro, eu ganhei, todo mundo ganhou. Mas foi feito tudo na confiança. Coisa errada? Errou, tem que comer com farinha. Não tem jeito, querida. Não tem outro jeito. Não tem outro jeito. Não tem – disse Douglas a Rita de Cassia Adriana Prado.

Durante 44 minutos, os diretores do São Paulo tentam convencer a intermediária a retirar um processo contra uma empresa que havia contratado o camarote explorado clandestinamente para o show da Shakira, em fevereiro de 2025.

Uma das testemunhas respondeu à Força Tarefa que "ouviu falar" sobre Rita de Cássia Adriana Prado, por causa da proximidade com Mara Casares.

– Quando ela começou a frequentar ali os camarotes… A gente conhecia ela por Adriana. Eu não a conheço, mas eu ouvia falar no nome dela. (...) Quando tinha os ingressos que iam direcionados para o atendimento ao camarote. Ela estava sempre lá com a dona Mara Casares. Participava dos eventos dela. Por isso, tínhamos essa sucessão do nome.

O terceiro inquérito que tem o São Paulo como possível vítima tem como alvo António Donizete Gonçalves, ex-diretor social do clube e conhecido por Dedé.

Ele teria oferecido vantagens dentro do clube a uma pessoa. A Polícia Civil recebeu e investiga um áudio em que Dedé fala sobre condições para se abrir um negócio no São Paulo.

O posicionamento de Julio Casares

"A defesa de Julio Casares, representada pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, com vistas a restabelecer a verdade, reitera que todas as movimentações financeiras de Julio Casares possuem origem lícita e legítima.

No tocante a rubrica “ações promocionais', reitera que tudo se acha regularmente acautelado na Contadoria do Clube. O numerário, que transitou pela conta contábil do SPFC, alocado nas movimentações financeiras em jogos e constante da pasta contábil “adiantamentos em jogos', foram disponibilizados pela Diretoria Financeira e Contadoria do Clube para serem utilizados em despesas recorrentes de, no mínimo, 172 jogos do SPFC em diversas competições. Ou seja, tudo com destinação certa, específica e formalmente contabilizada.

Com relação a ingressos, esclarece que todos os diretores, conselheiros, coordenadores de grupos políticos, atletas e familiares têm quota determinada de ingressos cortesia para eventos que são sediados no Estádio do São Paulo Futebol Clube. Referidos ingressos, também disponibilizados para fins de relacionamento institucional e comercial, são permitidos pela política do Clube e não possuem valor financeiro.

Por fim, a defesa repudia de forma veemente o seletivo vazamento do conteúdo de investigações que tramitam, por determinação do Poder Judiciário, sob sigilo. Causa estranheza e inquietação que a parcial inobservância do sigilo decretado pelo Poder Judiciário ocorra após o compartilhamento de peças selecionadas com o São Paulo Futebol Clube. De toda sorte, a defesa e seu constituinte confiam na seriedade das instituições e autoridades, que certamente apurarão – e responsabilizarão – os envolvidos."



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