
Ismael Pinto Narcizo
Silêncio, ouça!
| ISMAEL PINTO NARCIZO
Silêncio! Ouça as vozes débeis, inocentes presas, exclusas pelas despudoradas rubricas do descaso.
Silêncio! Ouça as pobres vozes, clamantes de vazios estômagos, inominados pedintes.
Silêncio! Ouça as vozes lamentos, esquecidas, asiladas de ex-sonhadores.
Silêncio! Ouça as vozes gemidas, trêmulas, debaixo das pontes, relutantes, sobreviventes heróis.
Silêncio! Ouça as vozes multicores nos semáforos, cruzamentos dos olhares disfarçados, desconfortados, por segundos dissimulados.
Silêncio! Ouça as vozes free-lancer a beira das estradas, os chapas de todos os dias e noites sem fim.
Silêncio! Ouça as vozes das esquinas noturnas, seminuas, semi dignas, entregues aos carrascos de insanos desejos.
Silêncio! ouve te a ti mesmo, perceba-te vivo, antes que tarde demais, desumanizado, cruel, nenhuma voz ouça mais.