Cavaquinho de presente do pai virou estrada de 25 anos na música

Aos 12, Renatto começou sozinho, passou pelo pagode e hoje aposta em reggae e composições autorais

| CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS


Renatto começou a tocar cavaquinho aos 12 anos e, desde então, construiu uma trajetória na música.

O que era para ser apenas uma alternativa a um violão grande demais acabou se transformando no começo de uma história de 25 anos dedicados à música. Aos 12 anos, Renato de Morais Lima, o Renatto, ganhou um cavaquinho do pai e, com um livrinho de cifras e muita curiosidade, começou a aprender sozinho. Hoje, aos 39 anos, o músico de Campo Grande vive da arte e segue explorando diferentes ritmos.

A paixão pela música começou ainda na infância, quando Renato acompanhava os tios, todos ligados ao sertanejo, em encontros de família. Aos finais de semana, era comum estar na casa deles, onde sempre havia alguém tocando violão ou cantando. Foi nesse ambiente que ele começou a sonhar em ter o próprio instrumento.

'Eu pedi um violão para o meu pai, só que ele achou o violão muito grande para mim, porque eu era pequeno. Aí ele comprou um cavaquinho. A princípio, eu queria muito o violão, mas agradeço imensamente por ele ter me dado o cavaquinho', conta.

Junto com o instrumento, o pai entregou um livrinho de Jorge Aragão, com cifras e batidas para iniciantes. A ideia era que o garoto aprendesse primeiro a tocar cavaquinho e, depois, ganhasse o tão desejado violão. Mas Renato não demorou a mostrar que tinha facilidade para a música.

'Deu um mês e eu já sabia todas as músicas do livrinho, já sabia a batida. Foi na raça mesmo, nunca tive um professor de música ou fui para uma escola. Eu sempre fui muito de escutar e tirar as coisas de ouvido', lembra.

A dedicação chamou a atenção de um vizinho, que trabalhava no restaurante do Horto Florestal, onde havia apresentações de samba. Foi ele quem apresentou Renato a Bicudo, o responsável pelo espaço, que acabou se tornando uma espécie de professor informal do garoto.

Bicudo recomendou que o menino escutasse nomes como Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Jorge Aragão, além de ensinar algumas batidas no cavaquinho. A partir dali, Renato passou a desenvolver ainda mais a percepção musical e foi aprendendo a identificar ritmos.

Aos 14 anos, Renato recebeu o convite para integrar o Tempero do Samba, grupo que já tinha experiência nos palcos e precisava de um novo integrante para uma apresentação de Carnaval em Rio Brilhante. Com a autorização do pai, ele fez a primeira viagem musical e começou uma parceria que duraria cerca de 13 anos.

Durante esse período, o grupo gravou 2 discos, um DVD e venceu um festival estudantil. Renato também passou do cavaquinho para o violão e acompanhou o crescimento do projeto, que chegou a trabalhar em um álbum com a participação do produtor Cláudio Bonfim, conhecido por seu trabalho com o Exaltasamba.

No entanto, a pausa do grupo marcou uma das fases mais difíceis da vida do músico. Depois de tantos anos dedicados ao pagode, Renato precisou encontrar um novo caminho e decidiu investir em estilos que já faziam parte de seu repertório pessoal, como reggae, black music e samba-rock.

'Para mim, meu mundo caiu, porque a minha vida toda foi aquilo ali. Eu falei que ia continuar mexendo com música, mas queria tocar outras coisas agora', lembra.

A mudança também aproximou Renato da cena independente de Campo Grande. Ele passou a frequentar saraus, conhecer artistas locais e escrever as próprias composições. O contato com o reggae e o sound system, especialmente no Rockers Bar, despertou ainda mais o interesse por novas sonoridades.

'Eu comecei a escutar cada vez mais coisas, participar dos saraus e conhecer essa cultura nossa também. Fui entendendo que existe uma cena muito grande na cidade', afirma.

A decisão de continuar na música exigiu persistência. Renato conta que pensou em abandonar a carreira. Para continuar trabalhando com arte, aprendeu também a produzir músicas, gravar e editar vídeos, criar cenários e escrever roteiros para videoclipes.

'Eu tentei parar de fazer música, mas não consegui. Fui me virando e aprendendo outras coisas dentro da própria música', relata.

Neste ano, Renatto lançou Verão, um álbum totalmente autoral que reúne influências de reggae, black music e samba-rock. Gravado ao vivo e de forma independente, o trabalho surgiu da vontade de registrar um repertório que já vinha apresentando nos palcos, inclusive em shows de abertura para artistas como MV Bill e Paralamas do Sucesso.

O disco também simboliza uma mudança na identidade artística. Antes conhecido como Renato Jackson, o músico decidiu adotar o nome Renatto, com dois 't', depois de o Google confundi-lo com um homônimo de São Paulo (SP) e identificá-lo incorretamente como morto.

Com músicas que também fazem referências a Campo Grande, como 'O Lenhador', o álbum representa, segundo o artista, um momento de renovação. 'Verão para mim não é só uma estação do ano, é um estado de espírito também. É um disco bem alegre', explica.

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