Entre o café e a conversa, CAPS é "porta aberta" para uma vida além do vício

Equipe acolhe sem encaminhamento e constrói tratamento conforme a necessidade e o objetivo de cada paciente

| INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


Fachada do CAPS AD IV em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

Nem sempre o primeiro passo é decidir parar. Às vezes, é entrar para tomar um café, pedir uma orientação ou voltar a um lugar onde alguém sabe seu nome. Para quem enfrenta problemas com álcool e outras drogas, aceitar ajuda pode levar tempo. E a melhora ganha formas diferentes: dormir melhor, sair das ruas, reencontrar a família ou recuperar uma rotina.

Na última reportagem da série sobre o funcionamento do CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), o Campo Grande News mostra como a rede pública da Capital acolhe essas tentativas e constrói, junto com cada paciente, caminhos possíveis de cuidado.

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Durante a entrevista, o psicólogo Mauro Corsini é interrompido algumas vezes para orientar pacientes que procuram o local. Um deles passa para conversar. Outro tenta recordar o dia em que havia pedido uma vaga de acolhimento, mas não retornou. A movimentação ajuda a mostrar como funciona o serviço, pois o cuidado é construído em contatos sucessivos, dentro do tempo e das necessidades de cada pessoa.

Mauro é um dos profissionais da Rede de Atenção Psicossocial do município. Dentro da unidade, faz acolhimentos, atende pacientes, integra a elaboração dos projetos terapêuticos e conduz atividades em grupo. Fora dela, participa de abordagens em cenas de uso, aproximando-se de pessoas que nem sempre conseguem chegar sozinhas ao serviço.

O psicólogo trabalha especificamente com esse público desde 2019, mas já havia atendido pessoas afetadas pelo uso de substâncias durante passagens pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), pela atenção básica e pelo trabalho com adolescentes em conflito com a lei.

Nas manhãs de sexta-feira, Mauro percorre, com outros integrantes da equipe, pontos do Centro como a Orla Ferroviária, a região da antiga rodoviária e praças onde existem cenas de uso. Os profissionais conversam com quem aceita a aproximação, apresentam o serviço e fazem o convite para o atendimento.

“É desafiador, mas a maioria já me conhece. Aí fica mais fácil', afirma.

O convite nem sempre tem resultado imediato, algumas pessoas pedem acolhimento, mas desistem. Outras entram na unidade para conversar, usar o banheiro ou tomar um café. Esses contatos ajudam a construir a confiança necessária para a adesão ao acompanhamento.

Ao falar de um homem que já demonstrou interesse em permanecer na unidade, mas ainda não iniciou o tratamento, Mauro explica que “Um dia ele vai chegar. Está conhecendo, pegando confiança. Sabe que aqui vai ser um lugar onde algum tipo de atendimento ele vai ter'.

Portas abertas - A rede municipal de saúde mental de Campo Grande possui sete CAPS, todos com funcionamento 24 horas. Dois são especializados no atendimento de pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas: o CAPS AD III Guanandi, com 10 leitos, e o CAPS AD IV Fátima M. Medeiros, com 20 leitos.

De janeiro a agosto de 2026, as duas unidades somaram 46.064 atendimentos. Foram 18.366 no CAPS AD III Guanandi e 27.698 no CAPS AD IV Fátima M. Medeiros. No mesmo período, toda a rede municipal de saúde mental registrou 158.889 atendimentos, 7,2% a mais que os 148.190 contabilizados nos primeiros oito meses de 2025. Em todo o ano passado, foram 226.312 atendimentos.

Os números representam atendimentos realizados, e não necessariamente pessoas diferentes, porque um mesmo paciente pode utilizar o serviço diversas vezes durante o acompanhamento. Não é necessário passar antes por uma unidade básica de saúde nem apresentar encaminhamento. Os CAPS funcionam na modalidade de portas abertas e quem enfrenta problemas relacionados ao consumo de álcool ou outras drogas pode procurar diretamente a unidade mais próxima de sua residência, a qualquer hora e em qualquer dia da semana.

Na chegada, um profissional de plantão realiza o primeiro acolhimento e avalia as necessidades mais urgentes. Conforme o caso, a pessoa pode passar por atendimento médico de emergência, ter uma consulta agendada ou iniciar outras formas de acompanhamento. Segundo a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), o atendimento é individualizado e multidisciplinar.

As unidades também oferecem acolhimento para pacientes que precisam permanecer temporariamente no serviço. Quando o quadro exige atenção hospitalar, a equipe solicita uma vaga na atenção terciária. Casos mais graves podem ser encaminhados ao Hospital Regional. Se o uso de substâncias estiver associado a outro transtorno psiquiátrico, também pode haver encaminhamento ao Hospital Nosso Lar.

Mesmo quando alguém procura apenas uma consulta ou receita, o cuidado pode envolver outros profissionais. A equipe elabora o PTS (Projeto Terapêutico Singular), que organiza o tratamento conforme a trajetória, as condições e os objetivos de cada paciente.

O projeto pode incluir consultas, atendimento individual, grupos, acolhimento e encaminhamentos para outros serviços. Também pode estabelecer metas como voltar a estudar, regularizar documentos, retomar vínculos familiares ou recuperar atividades cotidianas.

“Cada um tem sua peculiaridade, seu problema a ser observado e tratado. A gente vai ter metas diferentes para cada um', explica Mauro.

Abstinência - A maioria dos pacientes, segundo o psicólogo, procura o CAPS com o desejo de interromper o uso de álcool ou outras drogas. A abstinência, porém, não é uma exigência para receber atendimento nem o único resultado considerado positivo. Em alguns casos, o avanço pode estar na redução do consumo ou na interrupção do uso de uma substância que provoca danos mais graves. Em outros, aparece na saída das ruas, na retomada de vínculos familiares, na adesão à medicação ou na recuperação de uma rotina.

Mauro cita um paciente que vivia nas ruas e fazia uso de pasta base. Ele não deixou completamente as drogas, mas parou de consumir a substância que lhe causava prejuízos mais intensos, saiu da rua, voltou a frequentar o CAPS e retomou o contato com a família.

“Ele saiu da rua e voltou a falar com a família. Tudo isso é conquista', afirma.

Outro paciente está próximo de completar 16 anos sem consumir bebida alcoólica. Nesse período, viu os filhos crescerem e passou a participar da rotina da neta. Para Mauro, uma eventual recaída futura não apagaria o que foi alcançado.

Há ainda pessoas que procuram o serviço sem a intenção de parar completamente. Elas querem controlar o consumo, dormir melhor ou reduzir os prejuízos provocados pelo uso. Mesmo assim, podem participar de grupos, passar por consultas e manter acompanhamento regular.

“Nem sempre vai ser o parar de tudo que ele vai conseguir. Às vezes, ele veio procurar uma melhora', diz o psicólogo.

Rotina - O acompanhamento não se limita às consultas, pois há pacientes que chegam pela manhã, tomam café, conversam, assistem à televisão e participam de rodas de conversa ou outras atividades. Há também quem compareça para receber medicações injetáveis de longa duração, conforme indicação médica.

O objetivo, entretanto, não é manter o paciente permanentemente dentro do CAPS. A equipe procura conectá-lo a outros espaços e serviços. Um idoso, por exemplo, frequenta a unidade em alguns dias da semana e, em outros, participa das atividades de um CCI (Centro de Convivência do Idoso).

“A ideia do CAPS é não ficar preso no CAPS', resume Mauro.

A articulação pode envolver equipamentos da assistência social, centros de convivência, abrigos, universidades e serviços de emprego. Quem precisa solicitar benefícios ou regularizar o Cadastro Único é orientado a procurar o CRAS. Em alguns casos, também há encaminhamento à Funsat (Fundação Social do Trabalho) para a busca de trabalho.

A equipe pode ainda conversar com familiares e tentar restabelecer vínculos, quando isso é possível e faz parte do projeto do paciente. Mauro Corsini afirma que a aproximação, no entanto, costuma ser difícil porque muitas famílias chegam desgastadas depois de anos de conflitos, recaídas e tentativas de tratamento.

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