
Economia
Alimentos sobem mais que inflação e pesam no bolso das famílias mais pobres, aponta Dieese
| INFORMATIVOMS / DOURADOS AGORA - FLáVIO VERãO
Os preços dos alimentos continuaram pressionando o orçamento das famílias brasileiras nos primeiros cinco meses de 2026. De acordo com o Boletim de Conjuntura divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a alimentação registrou aumento acima da inflação geral no período, afetando com maior intensidade a população de menor renda.
Entre janeiro e maio, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de 3,20%. No mesmo intervalo, o grupo alimentação e bebidas avançou 4,81%, enquanto os alimentos consumidos dentro de casa tiveram aumento de 5,68%.
Segundo o levantamento, a inflação acumulada para as famílias de renda muito baixa chegou a 3,46%, enquanto entre as famílias de renda muito alta ficou em 2,83%, uma diferença de 0,63 ponto percentual.
Na avaliação do Dieese, o avanço dos preços dos alimentos compromete mais fortemente o orçamento das famílias de menor renda, que destinam uma parcela maior dos seus gastos à alimentação.
O boletim atribui esse cenário a uma combinação de fatores, como eventos climáticos extremos, instabilidade geopolítica, alta nos custos dos fertilizantes, exportações de produtos agropecuários e concentração de mercado. A entidade ressalta que essa é sua análise sobre o comportamento dos preços e que os impactos variam entre os diferentes produtos.
O estudo também analisa os efeitos da taxa básica de juros (Selic) no controle da inflação. Segundo o Dieese, quando a alta dos preços é provocada por fatores ligados à produção, clima, logística ou mercado internacional, o aumento dos juros tende a ter eficácia reduzida.
O boletim argumenta que, embora juros mais elevados possam conter o consumo e ajudar a reduzir uma inflação causada pelo excesso de demanda, eles também elevam o custo do crédito para produtores e empresas, o que pode dificultar investimentos e a expansão da oferta.
Como medidas complementares, o Dieese defende políticas como fortalecimento dos estoques públicos de alimentos, investimentos em infraestrutura, planejamento da produção agrícola, ações cambiais e revisão de mecanismos automáticos de reajuste de preços.
Além da inflação, a publicação dedica um capítulo à PEC 65, proposta que amplia a autonomia administrativa, orçamentária e financeira do Banco Central.
Segundo o Dieese, os defensores da proposta afirmam que a mudança permitiria maior flexibilidade administrativa, modernização tecnológica, retenção de profissionais qualificados e utilização de receitas próprias para custear as atividades da instituição.
Entre as alterações previstas está a destinação das receitas de senhoriagem — obtidas com a emissão de moeda — diretamente ao Banco Central. Atualmente, esses recursos são repassados ao Tesouro Nacional.
O boletim também apresenta as críticas à proposta. Entre elas estão a possibilidade de redução dos mecanismos de controle público, perda de receitas para o governo federal e maior exposição dos servidores responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro a pressões externas. O texto ainda aponta que futuros funcionários poderiam ser contratados pelo regime da CLT, sem a estabilidade prevista para servidores estatutários.
O economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, citado pelo Dieese, estima que a senhoriagem gerou receita média anual de aproximadamente R$ 23,4 bilhões entre 2017 e 2025 e classifica a eventual transferência desses recursos ao Banco Central como uma 'apropriação patrimonial de receita pública'.