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Entre prefeito “difícil” e porta aberta, investigação expõe caça a contratos
Mensagens interceptadas mostram que reuniões para convencer municípios aconteciam até dentro de órgão estadual
| ÂNGELA KEMPFER / CAMPO GRANDE NEWS
Era preciso chegar ao prefeito. Em alguns municípios, o acesso parecia fácil. Em outros, a primeira dúvida era justamente essa: “É de difícil acesso?'. As conversas reunidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) dentro da Operação Gutenberg mostram como investigados no suposto esquema envolvendo municípios e a Editora Avante avaliavam contatos políticos, buscavam reuniões com chefes de Executivos municipais e acompanhavam, quase em tempo real, o avanço das vendas de livros às prefeituras.
Os diálogos analisados pelo grupo são principalmente entre o advogado e representante da editora, Gabriel Taquino de Paula, e o ex-gestor de regulação da Saúde, Ed Carlo Britto Burgatt. As mensagens revelam a forma usada para tentar fechar contratos mediante propina.
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Em alguns casos, as conversas tratam apenas de conseguir acesso aos gestores. Em outros, aparecem menções a percentuais, ganhos financeiros e até ao uso de serviços públicos de saúde como moeda nas negociações.
Em fevereiro de 2022, Gabriel foi direto ao perguntar sobre dois prefeitos. “O (de Anastácio) é de difícil acesso? E o prefeito de Aquidauana?', escreveu. Logo depois da pergunta, Gabriel explicou o interesse: “Pra gente ganhar um dinheiro'.
Ed Carlo respondeu que poderia verificar. Gabriel completou: “Se fechar a gente vai ganhar um dinheiro sem fazer nada'. Na mesma sequência, afirmou ter fechado negócio de R$ 780 mil com Angélica e que receberia R$ 20 mil por isso.
A conversa resume uma dinâmica que se repete no documento: descobrir quem tinha acesso ao prefeito, conseguir a reunião e tentar avançar com a contratação, com propina que ia de 2% a 15%.
Em Caarapó, por exemplo, Gabriel informou em 24 de maio de 2022 que havia se reunido sobre o município e demonstrou confiança de que o negócio seria fechado. “Terça-feira vou lá só fazer o merchandising com o prefeito', escreveu.
Na sequência, enviou as mensagens sobre proposta de divisão da suposta propina: “5 seu', “15 prefeito'. O diálogo aparece junto de uma proposta da Editora Avante para a Prefeitura de Caarapó. O documento não comprova, nesse trecho isolado, que o prefeito tenha recebido qualquer valor. As mensagens, porém, são tratadas pelo Gaeco dentro da investigação sobre possíveis vantagens ligadas às vendas.
Dois dias depois, em Inocência, o contato parecia ainda mais direto. Ed Carlo avisou a Gabriel: “Prefeito está aqui' e “Esse é só meu se rodar'.
Gabriel respondeu que pediria o orçamento e acrescentou: “Aí vc divide com o prefeito'. Segundo o Gaeco, a reunião ocorreu na regulação estadual de saúde, local de trabalho de Ed Carlo até então. Antes do encontro, ele orientou Gabriel a não mencionar percentuais porque havia outra pessoa na sala. “Só explica e não fala nada de percentual ok', escreveu. “Tem uma pessoa com ele e não sei quem é'.
O caso de Nova Alvorada do Sul mostra o outro lado das negociações: quando o negócio não avançava.
Segundo o relatório, havia dificuldade para fechar com o prefeito porque o município estaria se alinhando com outros fornecedores. Nas mensagens, Ed Carlo afirmou: “Vou ligar pro prefeito', “vou ajudar um monte o prefeito', “pra nada', “eu tranco tudo aqui' e “saúde zero'.
Para o Gaeco, Ed Carlo usava sua posição na Secretaria Estadual de Saúde para condicionar o encaminhamento de cirurgias e exames à contratação da Editora Avante por intermédio dele e de Gabriel.
Em outra conversa, quando surgiu a informação de que Nova Alvorada do Sul não faria a contratação por falta de orçamento, Gabriel escreveu: “Deixa o povo sem leito lá' e, no dia seguinte, “Suspende as cirurgias de nova alvorada' e “O cara não cumpriu'.
A investigação afirma ainda que, em outro momento, quando havia expectativa de fechar o negócio, Gabriel disse que Ed Carlo ganharia R$ 80 mil. Ed Carlo respondeu: “Vou dar 300 mil de exames pra eles' e “Fora as cirurgias'. Para o Gaeco, a conversa demonstra uma suposta vinculação entre benefícios na saúde e o avanço da contratação.
Em Ivinhema, o acesso ao prefeito voltou a aparecer ligado à saúde. Em novembro de 2022, segundo o relatório, Gabriel tentava vender ao chefe do Executivo municipal e dizia que, caso conseguisse, daria “um presente' a Ed Carlo.
A investigação registra ainda que Ed Carlo afirmou que resolveria a situação do prefeito na área da saúde. Gabriel respondeu: “Eu tenho um amigo que resolve', seguido de “Mas precisa agraciar ele'.
Em janeiro de 2023, o assunto voltou à tona. Gabriel mencionou uma reunião com o prefeito de Ivinhema e pediu ajuda para uma demanda na regulação. Segundo o relatório, a conversa tratava da prestação de serviços na saúde em troca de contratos com a prefeitura.
Em Angélica, o caminho para chegar ao prefeito também passava pelo próprio local de trabalho de Ed Carlo. Em janeiro de 2023, Gabriel marcou uma reunião com o chefe do Executivo municipal na Coordenadoria de Regulação. “Terça feira aí na regulação', escreveu. “Com o prefeito de Angélica'.
Porto Murtinho aparece em outro núcleo das conversas. Felipe Jafar, preso na operação como proprietário da Editora Avente, disse ao dono de garagem de Campo Grande, Francisco Anizio dos Santos, que tinha contatos em municípios e conseguiria “de prontidão já começar a mexer alguma coisa'. Em seguida, contou que iria falar com o prefeito de Porto Murtinho.
Em outra mensagem, disse que viajaria ao município para “finalizar lá os negócios' e buscar orientações sobre como conversar com a secretária e a diretora pedagógica. O trecho mostra a busca direta por acesso aos responsáveis municipais para viabilizar as vendas.
O Campo Grande News tentou contato com as prefeituras citadas no documento e aguarda resposta.