O frio artificial melhorou o péssimo gado de Mato Grosso do Sul

| MáRIO SéRGIO LORENZETTO / CAMPO GRANDE NEWS


Escrevi há tempos que a picanha brasileira custa a metade do preço de uma argentina ou irlandesa. A má fama e qualidade da nossa carne bovina vêm do início do século passado. A nossa continua sendo carne para hambúrguer, de baixa qualidade.







Boi pantaneiro, o baixinho. “Estatura bastante pequena, cauda comprida e delgada, couro escuro e os quartos traseiros fracamente desenvolvidos'. Essa é a descrição de um dos melhores estudos sobre a pecuária do Mato Grosso do Sul. E, para completar, era uma vaca bravia que atacava constantemente os cavaleiros. A existência de alguma diminuta melhoria começa só em 1908, com a chegada de algumas vacas de melhor qualidade de Minas Gerais.











O frio artificial, chegam os frigoríficos. O consumo europeu de carne bovina devido à Primeira Guerra Mundial diminuiu as exigências de qualidade do produto. Nesse período, os europeus deixaram de consumir carne resfriada do tipo “chilled' – que só utilizava novilhos selecionados de altíssima qualidade – para optar pela carne congelada, do tipo “frozen', originada de rebanhos de qualidade inferior. Até então, a invenção do frigorífico, criada pelo engenheiro francês Charles Tellier, não havia sido difundida no Brasil.











O frigorífico de Barretos. A grande festa do boi brasileiro ocorre anualmente na cidade de Barretos (SP). Sucesso não costuma ocorrer por acaso e sem esforço. Foi lá que Antônio Prado instalou um moderno frigorífico em 1912. No ano seguinte, até 1917, outros no sudeste seguiram o “cheiro do frio'. O governo federal só foi entender a importância desses estabelecimentos nesse ano, concedendo-lhes benefícios. “Frio e exportação de carne explicam a melhoria do gado do MS. Enquanto só produzíamos carne para o consumo interno, os criadores pouco caprichavam na escolha dos reprodutores', dizia o Ministério da Agricultura em 1939.











A Brazil Land e a melhoria do gado do MS. Em 1912, o governador do Estado afirmava que a construção da ferrovia e a instalação de frigoríficos em São Paulo estavam animando a pecuária do MS. Já em 1915, só um frigorífico de Osasco (SP) tinha comprado 36.000 cabeças de gado do MS. Desse total, 25.000 saíram de uma só empresa, a Brazil Land. Foi essa empresa que, próxima a Campo Grande, importou cerca de 1.500 cabeças de boi Hereford e Shorthorn, especialmente para a venda de reprodutores. Em seguida, veio a inglesa John Moore & Company que montou uma “cabana', como chamaram, na fazenda Bandeira, também próxima a Campo Grande.











A vaca degenerada. O processo de modernização do rebanho bovino do MS passou a ser feito de forma mais sistemática por grupos que dispunham de experiência nessa atividade. No entanto, o gado pantaneiro continuou sendo “degenerado', como os estrangeiros o denominavam. Muito tempo depois, em 1947, o FRIMA (Frigorífico Matogrossense S/A) foi implantado em Campo Grande, marcando a primeira indústria de vulto na cidade e impulsionando o desenvolvimento econômico da região. Foram exatos 30 anos de atraso.





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