
Esportes
O que é o "jogo aposicional" que Diniz citou no Bem, Amigos! como sua filosofia tática
Treinador deu explicações táticas sobre sua forma de jogar, considerada única por muita gente
| GLOBOESPORTE.COM / LEONARDO MIRANDA
Na mesma semana, o Fluminense perdeu de 3 a 0 do Corinthians na Copa do Brasil e venceu o finalista da mesma competição (e da Libertadores), o Flamengo, por 2 a 1. Vitória e derrota são dois lados da mesma moeda. O que não muda no Fluminense treinado por Fernando Diniz é a forma de jogar , tida como única por treinadores como Luís Castro e admirada (e criticada) por muita gente.
No Bem, Amigos dessa segunda (19), o técnico foi indagado por Galvão Bueno e Luiz Carlos Júnior sobre sua forma de jogo. E deu uma explicação bem tática daquilo que enxerga como futebol:
Desde que a análise tática se tornou popular no Brasil e invadiu as redes sociais, alguns termos como Jogo de Posição e jogo posicional ganharam a boca de muita gente, e ficou conhecida após Tite citar o Manchester City como sua inspiração para a Seleção jogar num 2-3-5 com a posse de bola na Copa do Mundo de 2018, com Willian e Neymar sempre bem abertos, e ficou no imaginário com Domènec Torrent, Ramírez, Paulo Sousa e os sobreviventes Abel Ferreira, Luís Castro e Vitor Pereira usando o termo nas coletivas.
Como Diniz falou, todo treinador é único. É muito sedutor e dá uma certa pompa acadêmica colocar treinadores em quadrantes e escolas diferentes. Mas num mundo globalizado e com acesso à informação, todo mundo tem acesso a materiais acadêmicos. No fim, muitos treinadores usam elementos posicionais, da escola de Cruyff, dos portugueses e do que Diniz cita.
Dado o desconto, vamos então definir o que seria o "jogo aposicional" de Diniz como oposição ao jogo posicional.
Primeiro: o que Diniz chama de "aposicional" é a mesma coisa que Zezé Moreira chamava de "sanfona" no título carioca do mesmo Fluminense em 1959 , e o que o jornalista Pedro Scartin e o treinador Gentil Cardoso apelidaram de "toque de bola" no fim da década de 1950, após o Brasil vencer sua primeira Copa do Mundo. É o que a CBF, no primeiro estudo acadêmico sobre o tema, chamou de Jogo de Mobilidade em 2021.
Essa forma de jogo parte da a ideia de ter sempre muitos jogadores perto da bola. Não importa onde esteja: a zona da bola é a principal do campo e os jogadores possuem liberdade inverter as posições, desde que estejam próximos da bola. Um exemplo: o Samuel Xavier "troca" de posição com o Luiz Henrique. Um por dentro, outro no lado. Já o Arias resolve não trocar com ninguém, mas se aproxima para gerar ainda mais jogadores próximos do setor.
E qual é intuito de aproximar da bola? Com muitos jogadores próximos, se criam linhas de passe próximas de quem está com a bola para ele TOCAR. E depois de tocar? Os movimentos recomeçam: quem toca se movimenta num setor na frente, cria outra linha de passe e assim vai envolvendo o adversário até chegar ao gol.
Um exemplo claro no Fluzão é Samuel Xavier. Ele se movimenta no setor onde está a bola e cria linhas de passe. Faz o jogo apoiado. Após dar o apoio e receber a bola, ele toca para alguém e aí DEVE se movimentar na frente. Isso faz ele explorar um espaço desprotegido, nas costas do adversário, e receber livre para bagunçar a marcação.
Agora prestem a atenção na semelhança desses conceitos com a Seleção de 1982. Júnior apoia por dentro com o intuito de se aproximar no setor da bola. Junto dele, está Serginho. Apesar de ser centroavante a todo mundo achar que o papel do 9 é ficar parado, ele aqui troca de posição com o objetivo de...aproximar da bola! Assim como Falcão faz.
Júnior tocou a bola. O que acontece? O setor da bola muda. Quem tocou se desloca para ocupar a posição deixada. No caso, Júnior se desloca e avança para a posição originalmente de Serginho, assim como Falcão. E Sócrates, que era o falso-ponta do time, se aproxima do setor da bola. A liberdade existe com uma intenção: ter superioridade numérica. É importante entender que o Jogo de Mobilidade não é simplesmente fazer o que quer.
Outro exemplo é o Flamengo de Dorival. O treinador promove essas trocas com menos aproximações e mais ataques de espaço. Quer um futebol de posse e aproximação, mas com menos cadência e mais velocidade nas costas da defesa. Na imagem, Ribeiro inverte com Rodinei e o Gomes chega no setor da bola (como Arias e Xavier).
Qual é o próximo passo? Ao invés do toque curtinho do Diniz, a bola passa e quem está na frente tem que correr e se antecipar. Algo que fica mortal com Gabigol, Pedro e principalmente as diagonais de Arrascaeta. Renato Gaúcho, outro técnico dessa ideia muito brasileira, também promovia essas trocas posicionais.
A história do Jogo de Mobilidade
As comparações acima são formas de provar que diferentes times, em diferentes épocas, seguiam uma mesma base conceitual. É o que une, em suas diferenças, treinadores brasileiros, como Cuca, Dorival e Renato Gaúcho hoje, e mais atrás, Ênio Andrade, Carlos Alberto Silva, Telê Santana, Jair Pereira, Tim, Gentil Cardoso, Fleitas Solich, Zezé Moreira e Zagallo faziam.Todos únicos. Todos adeptos do Jogo de Mobilidade.
Esse futebol de toques e aproximação é uma herança de um contexto de futebol de rua. Com um campo pequeno, não fazia sentido todo mundo obedecer uma posição. Como a marcação era individual, a lógica para abrir espaço e tirar o defensor do lugar era se movimentando: enquanto um se mexia, o outro entrava no espaço.
+ Fernando Diniz e a lógica da roda de bobinho no Fluminense
A movimentação era o que unia jogadores. Criava conexões. E deixava o passe mais fácil de ser feito porque a distância era menor. No jogo posicional e no Jogo de Posição, o que une os jogadores é o espaço. O que cria conexões é a forma como eles ocupam espaço. A lógica é quase sempre a mesma: facilitar. Para quem tem problemas em dominar a bola na pelada, é mais fácil tocar curtinho do que lançar, o que envolve colocar a perna para trás e pegar impulsão. Daí parte a ideia da mobilidade como forma de superar uma marcação individual.
O futebol se torna profissional em 1930, vem o WM e depois o 4-2-4. Treinadores pegavam o esquema e faziam alguns jogadores saírem das posições. Flávio Costa adaptou o WM para a chamada diagonal:, com Bigode trocando de posição com Danilo e encostando em Zizinho. Depois, a "sanfona" de Zezé Moreira, com Paulinho e Telê (Santana, ele mesmo) invertendo posições no Flu em 1959.
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Daí nasce o 4-3-3 com Zagallo na Copa de 1958 e 1962. Uma mistura do futebol da Hungria de 1954 com o "utility player" dos ingleses na Copa de 1966, que provoca grandes mudanças no Brasil até Zagallo quebrar todo o sistema de João Saldanha e elevar as trocas posicionais à enésima potência na Seleção de 1970: até o beque na direita, Carlos Alberto Torres, invertia. Hoje corriqueiro, mas um choque na época.
+ Como Zagallo criou a escola brasileira de futebol no Brasil de 1970 + "Bota Ponta, Telê!": bordão de Jô Soares sintetizou período de mudanças táticas no futebol brasileiro
O Jogo de Mobilidade precisa virar livro - e acadêmico!
Perceba como os termos vão mudando, mas a ideia é sempre a mesma. Ao olhar Júnior apoiando por dentro, ou Arrascaeta e Samuel Xavier invertendo, o torcedor chama isso de "liberdade para jogar". Diniz chama isso de aposicional. Tite chama de jogo apoiado. Já Luxemburgo chama de "vem jogar, c******". Quem está certo, quem está errado?
O que acontece é que falta no Brasil estudos acadêmicos sobre futebol. Porque o jogo sempre foi tratado aqui como algo que se resume ao talento e é decidido na técnica. Isso fez a academia e a universidade se afastarem do jogo enquanto objeto de estudo. Quem nunca ouviu um técnico falar que "tudo se resolve na qualidade individual?"
Futebol precisa ser tratado como ciência. "Futebol não é ciência exata", dizem. Não é mesmo, mas até aí, tomar vacina não dá 100% de proteção - é melhor ter 99% do que nada. Não temos livros, nem estudos acadêmicos. Não documentamos o conhecimento. A CBF começou ao chamar esse tipo de jogo de "Mobilidade", mas ainda é muito pouco.
+ Abel Ferreira lança livro sobre tática. Por que o futebol brasileiro não documenta a própria história?
Por que Abel venceu tanto? Por que Jorge Jesus chegou e encantou? E Vitor Pereira, aos trancos e barrancos, está numa final? Porque eles têm conhecimento sobre treino. Sabem aplicar uma diferente ideia em poucas sessões de treino. Imagine se os técnicos brasileiros, todos, tivessem isso?
Não é papel de Tite ou do próximo treinador fazer a Seleção jogar "à brasileira". Treinadores são únicos. A criação de uma escola de futebol é papel da CBF. É ela que precisa fomentar estudos e documentar a história, para que o futebol brasileiro se aproxime de sua cultura pentacampeã. Sabendo que, num país continental, não existe apenas uma única forma de jogar.
E que, assim como Diniz, todo técnico é único. Ainda que possam partir da mesma base conceitual.
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